“Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra”, discursou o presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT), na abertura da 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nesta terça-feira (23), minutos antes do microfone ser passado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A crítica diz respeito às condições impostas pelos norte-americanos aos demais países nos últimos meses, que inclui um tarifaço, já em vigor, de 50% sobre as importações feitas do Brasil. Os presidentes adotaram posturas e discursos opostos na reunião.
Na ocasião, Lula ainda se dirigiu a chefes de estado de todo o mundo para defender o reconhecimento do Estado da Palestina e do compromisso dos países com as metas climáticas, destacando a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, em Belém, como a “COP da verdade”.
Por que isso importa?
Discurso de Lula pode reforçar a imagem do Brasil no que diz respeito à resistência às imposições do governo dos Estados Unidos aos demais países, bem como à política trumpista de interferência em outras nações. Lula reforçou ainda o papel da União Europeia e dos Brics na ocasião;
Convocação à participação real na COP pode reforçar compromisso por um pacto para evitar mudanças climáticas.
“Enquanto o Brasil defendeu o multilateralismo ao apoiar as Nações Unidas, os Estados Unidos atacaram a ONU dentro da ONU. Enquanto Lula fez a defesa do meio ambiente, Trump atacou a ideia de aquecimento global e as energias renováveis”, destacou o ex-embaixador Cesário Melantonio Neto, que afirma que a fala brasileira coloca o país “do bom lado da história”.
Já para o professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes, o discurso pode ser “o mais importante” da trajetória internacional de Lula. “O Brasil é entendido como um caso de sucesso, de resistência aos desmandos de Donald Trump. […] Lula capitalizou essa narrativa como estadista e como homem de Estado”, avaliou Lopes. “Desde a primeira semana de governo, ele convive com a ameaça à ordem democrática. E Lula construiu uma narrativa de legitimidade”.
O diretor-executivo do Democracia em Xeque, Fabiano Garrido, avaliou que o discurso foi “ao mesmo tempo, equilibrado e firme”, e que Lula, ao se posicionar na ONU poucos dias após manifestações no Brasil e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, reforçou a mensagem de que o Executivo tem respaldo para sustentar a ordem democrática. |